domingo, 1 de maio de 2016

Pausa para sentar - publicado originalmente no site Digestivo Cultural em 8/1/2016

Já me aconteceu de ver um banco que "fala", como o daquele famoso quadro de Van Gogh.
Ou um banco requintado, como os da praia de Deep Cove.



Bancos com estátuas.



Um banco com uma incrível paisagem atrás, vêm aquela contade de tirar uma foto ali, ou simplesmente ficar algum tempo apreciando a paisagem, e aí acontece a catástrofe! Vem alguém e chega na frente. Adeus, banco!
A saída possível é disfarçar e ficar á toa conversando, dando umas olhadinhas de esquelha, mexendo na máquina fotográfica, esperando que o intruso levante-se e ceda-me a vez.
O outro, para minha grande frustração, abre um livro, põe-se a folhear um jornal ou inicia um diálogo interminável com em acompanhante. Isso quando não tira da mochila um lanchinho, o que simboliza que não pretendo voltar tão rápido quanto eu gostaria para o lugar de onde veio.
Certa feita, minha investida ao banco foi cruzada por uma senhora idosa, eu fiz minha cara profissional de paisagem e aguardei. Quem sabe ela aguardasse o ônibus, havia um ponto em frente. Nada disso. ela chamou-me! Ouvi, surpresa, insólitos e singulares casos. Ela sorria, encantada por ter encontrado uma ouvinte atenta; como aprendi com meus mestres de psiquiatra, por via das dúvidas retribuí sua atenção com gentileza.Embarquei em um mundo paralelo, no qual Isabel Allende e Clarice Lispector enlouqueceriam de prazer, de onde Kafka teria retirado inspiração para mais um título instigante: "O banco".
Eu, no entanto, queria apenas a foto.
Os minutos se passavam, a senhorinha lançava-me olhares cada vez mais perigosamente íntimos e finalmente confessou que ali vinha todas as tardes, no mesmo horário, há anos, ouvir as confidências agoniadas da estátua (ela dizia desta mocinha) que procurava, procurava, sem nunca encontrar... sabe o quê?
- Nem ela, coitada! Já se esqueceu!
Um tremor percorreu-me o corpo. Perdi o resto de humor e a paciência. Desisti e despedi-me, de forma um tanto abrupta, receio.
Na tarde seguinte voltei mais cedo, acompanhada, tirei várias fotos e parti.



Alguns bancos deste mundo, estou convencida, deveriam estar protegidos por lei.
"Uso por tempo limitado".
"Fotografe com moderação"
"Proibido ler"
A cobrança por parquímetro poderia ser uma das opções.
Bancos charmosos deveriam ter a seu lado os cartões da loja, ou do artista, para que turistas ricos pudessem encomendar um semelhante para uso pessoal.
O de Van Gogh, que tenho reproduzido em um livro de arte em minha estante, visito de tempos em tempos para filosofar na fragilidade da alma humana.



Banco é objeto que extrapola o significado léxico. Útil para tanta coisa...inclusive para sentar.
Em minha opinião, porém, o melhor banco é a pedra onde me sento, ao final da tarde, no topo da montanha, após horas de caminhada pela mato, para admirar, sentindo os cheiros da terra, ao som dos passarinhos, o espetáculo inimitável e renovado do pôr do sol.

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