domingo, 1 de maio de 2016

É suave a noite

este texto dá nome ao livro de contos da autora

_Nut, a deusa da noite, estende seu manto negro para proteger o sono dos homens.
_Nut?
_Nut, a deusa da noite, cobre seus filhos com esse magnífico manto estrelado.
E enquanto minha tia falava, as últimas luzes do dia sumiram por trás da serra e escureceu. Era uma noite sem lua. Eu podia ouvir os vagalhões do mar e o farfalhar dos coqueiros soava mais alto. Milhares de sons apareciam com as trevas – sapos, corujas, mariposas em vôo. O mundo trocava as cores por sons. E a orquestração era magnífica.
Pude sentir os cheiros, que, à noite, ficam mais intensos. Lírios, camélias, damas da noite...e eu quase podia provar o mar no sabor salgado da brisa.
Ah! Como eu me sentia segura nos braços amorosos de Nut, que, nas minhas recordações, confunde-se com minha tia.
Por isso eu andava confiantemente pela casa às escuras, se acordasse com sede durante a madrugada. Por isso também era eu que, quando faltava energia, subia as escadas sozinho e ia à despensa buscar velas e fósforos.
_Tia, essa deusa Nut é de que país?
_Egito, meu amor.
_Aquele país das pirâmidos e dos desertos?
_E dos faraós.
_Da Esfinge.
_Das tempestades de areia.
_Dos oásis.
_Dos camelos.
E assim os temores que eu nem chegava a sentir transformavam-se em exóticas maravilhas.
Aprendi a amar a noite, e decifrar em seus cheiros e sons tão bem quanto nas cores e formas do dia.
É por isso que durante as horas mais negras, eu prossigo como quem atravessa uma tempestade de areia no deserto, na certeza de que as tempestades passam, e há sempre um oásis um pouco mais adiante.

Poetas são diferentes



"Num dos raros sonhos meus
e tavez no mais bonito,
eu peguei nas mãos de Deus
e rezamos no infinito".

...declamou o poeta Antonio Colavite Filho, trovador há 35 anos, em uma festividade no Orquidário de Santos.
Aqueles que focam no espiritual envelhecem com bom humor, sabedoria e gratidão pela vida. A saúde mental consiste em focar nos sentimentos e pensamentos positivos: beleza, harmonia, amizade, solidariedade.
A saúde física acompanha as boas disposições do espírito. Sofre menos quem ama mais. Quem participou dos Jogos Florais de Santos pôde verificar que, entre poetas de todas as idades, os mais animados são os mais velhos, cujas trovas, como vinho, melhoram a cada ano. Colecionando prêmios e amigos, essas almas inspiradas viajam felizes pela vida e pela arte.
Desde bem moça eu vivo em meio de artistas. Pintores, músicos, atores e escritores. A criatividade acrescenta um encanto peculiar à vida. Ninguém se aborrece ao lado dos artistas. Eles têm a capacidade de reinventar a vida, fazem da monotonia a oportunidade de olhar com olhos novos o cotidiano.
Artistas dão à vida o melhor de si.
Cada arte tem a sua própria maneira de moldar o cérebro do artista. Os trovadores são os que mais me encantam. A alegria deles é contagiante. Se reclamam de algo, é com humor, com piada. Estão sempre a brincar com as palavras. São solidários e espalham carinho em festas voluntárias em asilos, escolas e instituições variadas.
Trova é citada como gênero menor, vende pouco, não é mais divulgada em almanaques e suplementos literários. O importante é que haja trovadores, perpetuando um modo de vida dos "velhos tempos que não voltam mais". O ponto é que os novos tempos podem ser até melhores!Depende apenas de cada um de nós.
Novos tempos para as gerações futuras. Novos tempos para nós mesmos.
Envelhecer com dignidade e deixar boa marca no mundo está ao alcance de cada ser humano, a escolha é pessoal.
"Nunca respeite ninguém pelos seus cabelos brancos. Os canalhas também envelhecem." é o alerta que nos deixou Victor Hugo.
O indivíduo que passou a vida no crime não vira santo ao envelhecer. A hipocrisia do mundo poucas vezes é tão nojenta como na visão do velho tarado, do corrupto inveterado, do mentiroso compulsivo, que, como escorpiões, envenenam qualquer membro da família que for tolo o bastante para apiedar-se dele.
Quem quer respeito, deve se respeitável e respeitador. Quem quer amor, deve ser amável e amoroso.
Certamente as punições por crimes não prescrevem porque o criminosos envelhece! A meu ver a idade avançada, inclusive, deveria ser um fator agravante! Viveu e não aprendeu? Ainda por cima dá mau exemplo? Pena em dobro!
Triste perceber que tantos passam a vida reclamando. Outros desperdiçam os anos perseguindo prazeres materiais e efêmeros.

Os artistas são o contra-exemplo. Transformam as asperezas da vida em sonhos, textos inspiradores, cores deslumbrantes, formas ousadas, rimas preciosas.
Poetas dão ao material o justo valor enquanto buscam a eternidade.
Cada um, portanto, envelhece a seu modo.
A boa notícia é que você pode escolher como quer envelhecer. Tolo? Canalha? Generoso? Sábio?
Eu já escolhi. Quero envelhecer como os poetas.


publicado no site Digestivo Cultural em 14/10/2015

Lá na ponte de Avignon ...

Além de receitas deliciosas e de paisagens incríveis, a França tem foclore Vamos falar sobre a ponte Saint-Benezèt - a famosa ponte d'Avignon.

Uma canção histórica
fonte: Danièle Badois, Mission de l'Inventaire Historique d'Avignon
Arquives Municipales d'Avignon
(à l'affiche de la pont Saint- Benèzet - fundada em 1117)

Visitando o Palácio dos Papas, em Avignon, França, temos acesso à famosa ponte da canção, e a um acervo de informações interessantes.
Há registros de canções sobre a ponte desde o seculo XV, mas as primeiras canções se perderam; eram chamadas 'complaintes des oreillers' (em ingles pillow songs)
É em 1503, em Veneza que se tem o primeiro registro, pelo editor de músicas Ottaviano Pettrucci de Fossombrone, que apresenta esta fórmula simples:

Sur la pont d'Avignon
Ma belle passe et repasse.

Em 1575, existe um manuscrito musical escrito pot Lucques, com a letra:

Sur le pont d`Avignon
J'ouys chanter la belle,
Qui en son chant disoit
Une chanson nouvelle.

Em 1602 há uma canção conhecida como La Péronelle:

N`a vous point vue la Peronelle
Que les gents d'armes ont amenée
Et où?
Sur le pont d'Avignon j'ay ouy chanter la belle
Qui dans son chant disait une chanson nouvelle
Et quelle?

Em 1711 é recolhido outra adaptação ao gosto da época chamada Brunettes et Petits Airs Tendres

Sur le pont d'Avignon
J'ay ouy chanter la belle
Qui dans son chant disait:
Et baise-moi, tandis que tu me tiens
Tu ne me tiendras plus guère

Em 1811, le pont Saint-Bénezet, que estava em ruínas devido às enchentes do Ródano, é restaurada e sua reinauguração é saudada pelos habitantes de Avignon com a canção tradicional remodelada:

Sur le pont d'Avignon
Désormais, sans bac ni bateau (bis)
A son aise on peut passer l'eau (bis)
Chacun salue à sa façon.

Les beaux messieurs font comme ça
Et puis encore comm'ça
Leur chapeau passa, repassa
Les belles dames font comm'ça


Le pont étant bien étrenné (bis)
Chez soi chacun est retourné


Em 1843, Du Merson dá ao texto a forma mais próxima pela qual a conhecemos nos dias atuais, em seu Chansons et Rondes enfantines:

Sur le pont d'Avignon
Tout le monde y danse, danse
Sur le pont d'Avignon
Tout le monde y danse en rond.

Em 2 de fevereiro de 1853, l'Opéra Comique de Paris, o compositor Adolphe Adam introduz a canção, fixando o ritmo e a letra em sua opereta, adaptação da peça Le Sourd ou l'Auberge pleine.
A seguir seguem-se diversas produções artísticas com sucesso internacional, em 1876, em 1937 (autoria de Liette de Lahitte com música de Jane Vieu), e 1958, com o compositor alemão Karl Marx.
Enfim, a música é hoje um patrimônio cultural mundial.

Quem foi Benezèt?
(informações orais do guia em Avignon)
Conta a lenda que Benezèt era um jovem pastor de 17 anos que um dia ouviu a voz de Deus lhe dizendo para construir uma ponte sobre o Ródano, com acesso ao palácio do Papa. O pastor foi até o papado, onde ao ser recebido em audiência, assombrou o papa Clemente V com sua estranha proposta. O Papa, atônito, ficou calado, mas todos os presentes gargalharam.
A ponte era necessária pois as pessoas da outra margem ficavam separadas pelas fortes correntezas do rio; o pastor, para provar sua missão divina, carregou sozinho nos ombros uma enorme pedra e a colocou no leito do rio - essa foi a pedra fundamental da ponte.
As enchentes do Ródano são extremamente fortes em certos anos, pois recebe água das geleiras na primavera, e a ponte foi parcialmente destruída muitas vezes; dos seus 22 arcos originais só restatam 4. Atualmente existe uma reclusa acima de Avignon, e uma nova ponte, mais moderna, substituiu a ponte Benezet na função de circulação rodoviária.
Benezet morreu durante a obra, aos 25 anos. Foi enterrado numa capela feita sobre o terceiro arco da ponte. Tornou-se o santo patrono de Avignon. Depois de quase 500 anos seus restos mortais foram removidos e estão na igreja de Saint Didier em Avignon.



publicado no site Digestivo Cultural em 26/10/2015

Entrevista com a escritora Carolina Ramos, publicada no site Digestivo Cultural em 27/3/2015



Quem é Carolina Ramos

Mais conhecida como trovadora, esta escritora santista tem um vasto currículo e 16 livros publicados.
Professora, pintora e musicista recebeu inúmeras premiações no Brasil e no exterior nos gêneros Poesia, Conto, Trovas e Crônicas. Membro de várias academias, seus principais títulos e obras estão citadas no fina do artigo.

1 - Como descobriu a sua vocação para a poesia?
Nem sei dizer. Simplesmente, aconteceu! Comecei a fazer poesias quando minha segunda filha nasceu. Deu-me um "baile" de quase 5 meses de noites mal dormidas. E, aproveitando as horas insones, sem mais nem menos, comecei a fazer versos. Tomei gosto! Como a minha tendência era para o verso acadêmico, comecei a estuda-lo com afinco. E... acabei virando poetisa. Mas, entendo, que não foi a técnica que me fez assumir essa condição e, sim, qualquer coisa que já vinha comigo e que só precisava de um pretexto para aflorar. O mais apenas ajudou!

2 - Quais os principais prêmios conquistados?
Todos os prêmios, têm sua importância, quando nos chegam. Recebo cada um deles com a mesma alegria, como se fosse o primeiro e com especial carinho, como fosse o último. Os internacionais sempre causam um "frisson" extra. E assim também acontece com a diversidade dos gêneros literários, que, de certa forma, têm peso diferente! Depois de algumas premiações em poesia, a premiação de um conto, seja lá aonde for, é algo que faz um bem especial à nossa autoestima, principalmente quando esse prêmio vem de Portugal, onde nossa língua é a mesma, porém o uso que dela fazemos nem sempre é aprovado por lá. Assim, quando meu conto, "A Cadeira Velha" , deu-me um 1º lugar num Concurso, em Lisboa, exultei!
Como, foi também uma emoção muito grande ter recebido, em sessão da Acad. Bras. de Letras, das mãos do seu Presidente, Austregésilo de Athayde, a Medalha conquistada pelo meu poema, "A lagarta e a borboleta" , que ele me trouxe de Setúbal, Portugal, sendo-me entregue pessoalmente, em Sessão pública da Acad. Brasileira de Letras, em 30/12/65.
Também o acirrado Concurso do Rotary do Rio, cujo prêmio era a cobiçada "Lira de Ouro" , verdadeira joia, disputada por 10.000 trovas, num tempo em que não havia limite para o envio delas, considero uma vitória que se destaca das demais, assim como a que me deu o título de Magnifico Trovador", conquistado em Nova Friburgo/1974. Mas, repito, todos os prêmios são bem-vindos! Confesso, que tenho como hobby participar de Concursos. Para ganhar, se possível! E, também, para perder com humildade, capaz de aplaudir quem vence, com o mesmo entusiasmo! O importante é saber que, o maior prêmio que o concorrente ganha de início, é ter feito aquela poesia, aquele texto, ou aquela trova que aquele Concurso motivou, estimulando-o a compor! O mais, é pura emoção passageira.

3 - Pode dar um exemplo de trova lírica, filosófica e humorística?
Pensando que pede trovas minhas. Aqui vão:

Lírica:

Fecho os olhos... e me invade
um torpor de nostalgia...
- abro os braços à saudade
e ela aos teus braços me guia...

Filosófica:

Guarda sempre esta mensagem
da própria vida, que diz:
- É feliz quem tem coragem
de acreditar que é feliz!

Humorística:

Bichinho cheio de manha,
terno e manso quando quer...
mas, zangado, morde e arranha...
É gato?! - Não! É mulher!

4 - Os temas trabalhados em trovas devem ser baseados em valores e sentimentos? (caridade, amor, etc.) Ou qualquer tema é passível de ser abordado pelas trovas?
A trova é uma espécie de caixa, quadradinha, que se pode transformar num porta-joias, aceitando qualquer "coisa" que, bem trabalhada pelo artífice, pode ser transformada em algo de muito valor! Os temas podem ser infinitos, e, dependendo do talento e habilidade do trovador, todos, absolutamente todos, podem caber numa trova, quer seja ela de natureza lírica, filosófica ou conceituosa, religiosa, satírica, mordaz, humorística e mesmo mista, englobando, ou mesclando, duas ou várias destas classificações.

5 - Por que a Trova é modalidade poética pouco divulgada pela mídia?
Expliquei no livro "A TROVA - Raízes e Florescimento - UBT" que a Trova, embora cultivada,"en passant", por quase todos os poetas que deixaram seu nome nos anais da nossa literatura, não conseguiu que eles se fixassem nela, porque, na verdade, a trova para ser boa exige simplicidade, humildade e caráter popular que chegue à alma dos simples, não oferecia os mesmos focos de luz que um soneto ou um poema bem elaborado. E que os catorze versos de um soneto poderiam dizer mais do que aqueles simples quatro versos de uma trova, que desprestigiada era classificada de simples quadrinha. Desconheciam o fantástico poder da síntese da Trova e os achados, que tanto a valorizam e que se constituem nas maiores dificuldades que enfrenta o autor ao compor uma trova. Em outras palavras, a Trova não lhes dava Ibope.
A partir da criação da UBT por Luiz Otávio, a Trova ganhou terreno, bons poetas por ela se interessaram e aos poucos foi aceita nas Academias de Letras. A Trova estendeu-se, do Brasil à Europa num rumo inverso o que muito nos lisonjeia! E quem, ainda hoje, não lhe dá o devido valor é porque está por fora do que, na verdade, acontece na nossa literatura. A poesia trovadoresca é a que mais perto chegou da alma do povo brasileiro que, fugindo ao preciosismo, ao hermetismo e até a um certo pedantismo que algumas vezes lhe oferecem outros gêneros, aceita a Trova como um pingo de mel que adoça seus lábios e lhes chega ao coração levando-lhes lirismo, ensinamentos, filosofia, ou seja, o infinito que ela carrega dentro de si! A mídia, infelizmente, ainda não descobriu isto!

Jogos Florais de Santos, 2014

6 - É possível viver no Brasil, como escritor, mais especificamente, como poeta?
Acho muito difícil "viver no Brasil" (e em outro lugar também) como escritor e muito mais ainda, como poeta. Claro, que devem existir exceções! Mas é preciso nestes casos que estejam presentes, não apenas o talento do escritor ou do poeta , mas ,também, uma série de circunstâncias muito especiais, difíceis de se casarem com os desejos de quem espera ascender, sem combustível suficiente ou, então, alguém que ajude a sua ascensão. Sabem, aqueles que se apaixonam e se entregam às letras, que a melhor "remuneração" que um escritor, e, principalmente, um poeta, pode esperar como resposta aos seus esforços e dedicação é a sentir que sua mensagem encontrou verdadeiramente ressonância no coração de alguém. Esta é a suprema gratificação! O mais, é ilusório e fugaz, que pode amaciar o ego e aquela vaidadezinha, inevitável, que lhe serve de berço e lhe dá certo status mas que absolutamente não lhe garante o pão e nem o sustento dos filhos. Salvo exceções, que no momento não me ocorrem, o escritor que vive confortavelmente, e, sem preocupações econômicas, tem atrás de si uma estrutura anterior, que lhe assegura e resguarda o bem estar, permitindo-lhe viajar, gostosamente, pelo Mundo das Letras. É então o que se pode chamar de um artista privilegiado. E para que se possa beneficiar, tirando partido disso, é preciso que, conscientizado e sem se deixar arrebatar, seja capaz de, manter fluente, essa substancial fonte de rendas que o sustenta, em paralelo às demais, que, mais atrativas, alimentam seus sonhos.

7- Atualmente, como é o seu dia a dia? Como divide o seu tempo entre escrever, ler...
Sou mulher e a mulher dificilmente se aposenta, a não ser por auto deficiências que lhe dão um basta, quando ainda talvez desejasse continuar. Aposentadoria, só no papel! Filhos criados, divido meu tempo com o marido, os afazeres domésticos que não delego a ninguém, contratando alguém de 15 em 15 dias para me ajudar. Claro que não sou mais aquela dona de casa que eu era, e entre uma vassoura usada com menor frequência, eu diria que prefiro, não a caneta, ultrapassada, mas o teclado do computador, que é mais ágil e me ajuda a pescar as ideias que tecem os meus escritos, que hoje, não querem mais saber de rascunhos. Criei meus filhos sem deixar de compor. Meus três primeiros livros pertencem a esse tempo. Escrevo muitas vezes, mentalmente, enquanto trabalho. E depois despejo tudo no computador. Durante o dia minha escrita é entrecortada de interrupções. Assim tornei-me boêmia das madrugadas varando noites, quando o que tenho a escrever exige maior concentração. Sou consciente de que isto me prejudica. Mas, fazer o quê?! Quanto à leitura, posso dizer sem erro, que hoje escrevo mais do que leio. Mesmo assim, geralmente leio de dois a três livros ao mesmo tempo, dependendo de onde os deixo. Por vezes, confesso, percorro algumas páginas centrais obliquamente, porque, hoje, minha visão, algo precária, tornou-me obrigatoriamente seletiva. Em jovem, fui leitora voraz! Jornais, em geral, só pela manhã!

8 - Falando em e-books, hoje, com novas tecnologias, muito se ouve falar sobre esse mercado. Como escritora, como você vê essa tendência?
Ainda não estou bem afeita a essas "novidades" que às vezes me atrapalham um pouco quando tento abraça-las, já que as considero pertencentes a um tempo que ainda é meu. Embora considere uma surpresa bem cômoda, ler um livro numa tela iluminada, sem ter de busca-lo numa biblioteca, causa-me maior prazer, lê-lo, página por página, sem sentir meus olhos violentados pelo brilho de uma tela. E, depois de saboreado o seu conteúdo, fechar este livro, com carinho, dando-lhe um lugar numa estante, sabendo-o sempre ao alcance da mão, quando o quisesse reler, para mim, pelo menos, não tem preço! Festejo as novas conquistas eletrônicas como dinâmicos meios de divulgação, mas não creio que venham a fazer sombra aos livros editados normalmente, ao menos para os que os aprenderam a ama-los, tendo-os como companheiros fieis durante toda a sua existência!

9 - Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Que posso dizer àqueles que, pacientemente, leram minhas considerações? Um recado? Que seja este:

- Mais amor, menos ódios, mais fraternidade, respeito, compreensão e fé! O mundo está sumamente carente de tudo isto! E, no entanto, só através de tudo isto é que alcançaremos a tão desejada PAZ! Só assim poderemos ter certeza de que a poesia, hoje em perigo, não morrerá! E o Homem, que aos poucos se embrutece, conscientemente, há de voltar a ser gente!



Livros publicados:

"Sempre" de Poesias, 1968
Cantigas feitas de Sonho ,Trovas, 1969
Rui Ribeiro Couto - Vida e Obra (Biografia)
Trovas que Cantam por mim
Interlúdio (contos)
Paulo Setúbal - Vida e Obra , (biografia) co-autoria/Cláudio de Cápua
Feliz Natal (contos natalinos)
Príncipe da Trova (Biografia e História da Trova no Brasil)
Saga de uma Vida (biografia)
Um Amigo Especial (ficção para a juventude)
Júlia Lopes de Almeida (biografia)
Liberdade - Sonho de Todos (prosa e verso) EditoraAção, 2010.
Destino , 2011

Títulos, prêmios e agremiações:

Membro da Academia Cristã de Letras de S. Paulo.
Acad. Santista de Letras
Acad. Fem. de Ciências, Letras e Artes de Santos
Acad. Peruibense de Letras
IHGS - Instituto Histórico e Geográfico de Santos (que presidiu por 7 anos), Pres. da UBT-União Bras. de Trovadores/Seção/Santos Título de "Magnífico Trovador".
Homenagens e Prêmios Honoríficos recebidos por sua atuação cultural: Medalha do Sesquicentenário de Santos
Medalha de Honra ao Mérito " Brás Cubas"/Câmara santista
Medalha José Bonifácio, do IHGS - Instituto Histórico e Geográfico de Santos
Medalha "Luiz Otávio", comemorativa do Centenário do Poeta.(UBT - Seção Porto Alegre)

As fotos desta entrevista foram montagens feitas a partir de originais cedidos pelo jornalista João Paulo Ouverney

Entrevista com a escritora Lu Menezes, publicada no site Digestivo Cultural em 9/3/2015


Lu Menezes é santista, publicitária e escritora. Daquelas que entendem como ninguém a sobreposição de papéis e as contradições que permeiam nossos relacionamentos e cotidiano. Morou em São Paulo, Londres, Belo Horizonte e hoje se concentra na baixada. Viajante por opção, trabalho e oportunidade, aproveitou suas escapadelas pelo velho mundo pra aprender mais sobre as dicotomias, graças e malfeitos que acometem a todas as filhas de Maria. Assim nasceu Baião de Três. Uma mistura gostosa de tudo isso.
Cronista de jornais catarinenses, idealizadora de oficinas de escrita criativa e literatura, Lu também é blogueira, veja abaixo o nome de seu blog , onde se diverte com causos e contos, que retratam o dia a dia e brincam com nosso jeito de ser e ver a vida.


1. Quando você começou a se interessar por literatura?
A literatura sempre esteve presente na minha vida. Desde a infância. Com contos e personagens que se somavam as minhas próprias histórias. Como não partilhar das malandragens da boneca Emília? Ou não desejar ter o meu próprio pé de laranja lima? Foi mais ou menos assim que tudo começou. Lendo. E logo queria escrever. Mania que ainda me acompanha. Até os dias de hoje.

2. Como foi seu início no meio literário?
Sempre escrevi. Em alguns momentos, mais. Outros, menos. Mas o trabalho com leitores veio em 2010, quando comecei a escrever crônicas para o jornal Agora Meio Oeste, de Videira (SC). Trabalho embrionário. E que serviu de ensaio a composição do meu primeiro livro, Baião de Três. Na sequência, veio o blog, www.letrasecontos.com . E projetos de novos livros. Escrita é isso. E quem escreve sabe. Que não tem cura. Nem volta. Jamais.

3. Conte sua experiência nas Oficinas Culturais Pagu.
Comecei a trabalhar com oficinas em 2013, em Videira (SC). Daí vieram os encontros em minha cidade, Santos, nas Oficinas Culturais Pagu: um espaço ímpar, onde as mais diversas formas de expressão cultural se encontram. Disseminando arte e educação por toda a baixada santista. O foco das oficinas é a discussão e a produção literária, privilegiando a fluência discursiva e a busca por uma escrita mais consciente, focada e balizada em técnicas que favoreçam o nosso processo criativo.

4. Como você percebe o atual cenário literário brasileiro?
Hoje escreve-se muito no Brasil. O que é fantástico. Mas ainda precisamos pedalar um bocado até que os espaços e oportunidades atendam às necessidades reais do mercado literário nacional. Com chances efetivas de trabalho para os novos talentos e condições satisfatórias aqueles que tencionam viver das letras.

5. Quantos e quais são seus livros publicados?
Tenho um livro publicado até o momento. Baião de Três, um livro de contos e crônicas, que trata de gente, em seus pecadinhos cotidianos e histórias mais corriqueiras. Lançado em agosto de 2013, pela Editora Alley. E trabalho em outros dois projetos, com previsão de término até 2017.

6. Algum escritor exerceu impacto em sua obra? Quem? Por que?
Muitos. Vários. E são tantos que fica difícil nomear alguns. Mas gosto de citar Nelson Rodrigues, Gabriel Garcia Márquez, Jose Saramago e Luis Fernando Veríssimo, como nomes que influenciaram diretamente a minha escrita e forma de "ler" o mundo.

7. Quais os seus projetos para 2015?
Estou cem por cento comprometida com os novos livros que estou escrevendo, mas é claro que os "causos" do blog continuarão sendo publicados semanalmente. Além das novas oficinas que ainda vêm por aí.

8. Deixe uma mensagem final. Obrigada.
Obrigada, você, querida amiga, pelo bate-papo. Ainda mais quando o assunto é esse. Literatura. Escrita. Leitura. Prazeres que abrem portas e mentes. Que mostram caminhos e possibilidades que tornam nossas vidas ainda mais deliciosas de serem vividas. Aos bocados. Que assim é bem melhor. Só que vicia. Então, venham preparados...

Site da Lu: Letrasecontos

Sete Anos, de Fernanda Torres


Companhia das Letras


O livro reúne textos publicados entre 2007 e 2013 nas revistas Veja Rio, Piauí e no jornal Folha de São Paulo. Apenas uma é inédita, a que fala sobre a morte de Fernando Torres.
Fernanda fala do ofício do ator e da arte cênica fazendo um apanhado da história do teatro, cinema e televisão em cujos palcos transitou desde cedo na vida.
Há pontos negativos. Fernanda carece da técnica do escritor profissional e transporta para o papel certos vícios de linguagem cuja origem se compreende quando se lembra de seu sucesso como comediante. O caricato, a superficialidade, a generalização que provocam o riso contaminam sua prosa. Ela abusa dos clichês e mostra sem aprofundar. Lembremos que os textos foram originalmente escritos para colunas de mídia impressa, espaço rígido em seu formato. Imperdoável é a falta de revisão da Companhia das letras que deixou escapar mistura de tratamentos, como nessa frase da página 123: "O humorista fará piada com sua desgraça, o escritor te roubará as histórias e o jornalista usará sua informação."
O texto Buquê nada acrescenta ao leitor e destoa do conjunto. Fala da histeria feminina e de sexo oral em uma conversa à mesa que pretende ser engraçada, porém, "entre o chocolate e a carícia íntima", "esqueçam os aspargos" e a crônica.
Perdoemos estes deslizes da escritora Fernanda, já que a atriz nos presenteia com um retrato precioso dos bastidores da arte e se dispõe a "falar, sem deixar de ser pessoal, sobre coisas de interesse comum."
O texto de abertura é Kuarup, no qual ela nos detalha à sua maneira engraçada os apuros da equipe de filmagem, isolada no Parque Nacional do Xingu, alojada em barracas baixas que obrigava as pessoas a viverem acocoradas, observadas por famílias indígenas, tendo o material de cena que pernoitara ao relento devorado por formigas. A autora confessa ter perdido seus "delírios de moça fina" e desenvolvido um certo "ceticismo em relação à vida selvagem".
Comparando diretores, roteiristas, passeando entre grupos e tendências, Fernanda cita a mãe para diferenciar trama e drama. A trama é técnica fria, o sofrimento egoico que o psiquiatra cura. O drama é apanágio dos mestres, é a transcendência da alma, toca fundo o espectador.
Achei curiosa a revelação de Bráulio Mantovani: "quando disseram que meus personagens americanos eram estereotipados, eu não tinha a menor ideia do que fazer para humaniza-los."
Quando o assunto é política, no entanto, Fernanda vacila; usa tantas figuras de linguagem que acaba por dizer coisa nenhuma. Melhor calar, como fez a mãe ao ser convidada para entrar na política, como Ministra da Cultura. No entanto, ela é comentarista política...fica sempre em cima do muro.
No capítulo Os Russos há interessantes considerações sobre o uso da literatura como solução para o ensino da política. A autora justifica: "os personagens debatem, discutem, evita-se a doutrinação sem contexto, permite-se a retrospectiva histórica da reflexão; usa-se a contradição humana como narrador". Ao término, o texto, que mantinha o seriedade do tema, desagua na desastrosa última frase: "a arte é uma baita aliada da educação". Em minha opinião, a palavra baita descontrói o texto.
Minha crônica preferida foi No dorso instável de um tigre, sobre o ofício de ator:
"O deus do teatro é Dionísio, o doido, o catártico, o de vinho, o do êxtase. É preciso livrar-se de Narciso. Os iniciantes vivem por definição em estado de pânico. A angústia em cena é o motor do comediante; controlá-la é a arte do profissional". Segundo Fernanda, teatro é fingimento mútuo. "Eu finjo ser outro e você finge que acredita". A fobia do ator é o medo da cena. Se cavalo e entidade se misturarem no palco, é o colapso, o risco de perder o sentido da profissão. "Que razão há para fingir ser outro?". Há uma linha bem tênue separando personagem, alucinação programada e loucura. "O bom ator não representa, é." O final deste texto é perfeito: "Tudo se primeira fala da primeira cena de Hamlet: Quem está aí?"
O maior elogio que posso fazer ao livro é: Fernanda escreve com a alma. artigo publicado no site Digestivo Cultural em 16/3/2015

O charmoso quadrado japonês

Seguindo a trilha das cerejeira, no mês passado, em um vilarejo chamado Shiragawago, encontrei pela primeira vez o simpático Furoshiki. (pronuncia-se furoshikí)
Foi minha amiga Helena, sansei, que exclamou:
- Ah! Um furoshiki! Como o de vovó!
Trata-se de um quadrado de pano, no qual as pessoas embrulham tudo: presentes, caixas, garrafas, livros, panelas com comidas quentes. Nós artísticos fazem a diferença nos pacotes, que podem ser carregados como cantil, bolsa de mão ou a tiracolo, ou viram flores enfeitando um mimo. Os presentes são embrulhados em seda. Para uso familiar, qualquer tecido serve. Os japoneses capricham em tecidos elaborados com padrões adequados para cada estação do ano. Na primavera, por exemplo, flores e filhotes de animais são os preferidos.
O furoshiki teve origem no período Nara (710 - 784 d.C.) para transportar os bens do Imperador. Depois, no período Heian (794 - 1185) a nobreza utilizou amplamente esse recurso para acondicionar roupas. Nas casas de banho, esse era um modo prático de separar os pertences de cada um. (Lembrando que os japoneses gostam das saunas coletivas.)
No século vinte o uso do furoshiki diminuiu por conta da popularidade dos plásticos e embalagens artificiais. Contudo, em 2006, o Ministro japonês do Meio Ambiente, Yuriko Koike, lançou uma campanha para promover o uso do origami de pano, outro apelido do furoshiki. O motivo é simples - seu uso é ecológico, evita o despercídio de sacolinhas plásticas.
Comprei a idéia e repasso. Qualquer toalha de mesa, guardanapo ou pedacinho estampado de chita, até mesmo uma canga de praia pode ser facilmente transformada em bolsa ou embrulhar um presente de forma especial.
Fica o convite ao leitor para que conheça as formas, da mais simples até a mais elegante, de amarrar o furoshiki no vídeo abaixo.



artigo publicado no site Digestivo Cultural em 3/5/2015